sábado, 22 de maio de 2010

A missão das plantas - Bruno J. Gimenes

Ao entender que a maioria das doenças conhecidas da humanidade são derivadas dos pensamentos e emoções em desequilíbrio, começamos a ter uma maior noção de conjunto com relação à missão das plantas para a humanidade. Começamos, também, a ter mais claro em nossas mentes que, se aprendermos a manter a harmonia de nossa personalidade inferior, também aprendemos a nos curar, tornamo-nos responsáveis por nossa cura, assim como sempre somos responsáveis por nossa dor e doença.

Seguindo nessa linha de raciocínio, pegamos carona em uma das leis principais do universo: a Lei da Evolução Constante. Esse é um modelo mostrado pelo universo a todos nós: a vida segue seus ciclos naturais em evolução constante. Assim sendo, não podemos nos separar desse contexto, portanto, nossa missão aqui na Terra também é evoluir. Só que Deus nunca nos desampara, sempre nos oferece condições favoráveis para que suas leis se façam, enviando-nos recursos que nos ajudem a tornar essa missão mais simples.

A realidade atual é que o ser humano padece de uma miopia consciencial que não o torna apto a enxergar esses recursos e possibilidades que o universo nos envia. O curioso é que a maioria dessas opções são oferecidas abundantemente na natureza, com simplicidade, mas como não estamos conscientes, não as percebemos,
logo não as aproveitamos.

Este estilo moderno de viver dos novos tempos nos distancia demais dessa reflexão necessária e, como não refletimos que nossa missão é evoluir, também não chegamos à conclusão óbvia que evoluir significa purificar nossas inferioridades. À medida que nos limpamos de emoções e sentimentos como medo, mágoa, raiva, ódio, tristeza, depressão, pessimismo, ciúmes, arrogância, egocentrismo, insegurança, baixa estima e tantas outras, estamos evoluindo verdadeiramente.

A maneira como estamos direcionando nossas vidas está nos conduzindo para um caminho sem propósito, que ilude muito mais do que ensina e ajuda a evoluir. Nosso maior propósito é vencer esses sofrimentos advindos dessas emoções inferiores que temos tanta dificuldade em domar ou educar. E qual é a consequência? Qual é o preço que pagamos?

Ficamos doentes.

Contraímos as mais diversas chagas, da alma e do físico, que são tantas...

Muitas doenças novas surgem por ano, algumas se agravam e o homem, em sua maneira de conduzir sua vida, distanciado da Fonte, não aprende a eliminar a verdadeira causa ou origem dos males. Não compreende que, se é na alma que a doença nasce, é lá que ela deve também ser curada.

Tudo parece tão óbvio quando o analisamos assim, friamente. Então, por que é tão difícil entender?

Porque nossa cultura não ensina a tratar a causa, porque não acredita na alma, não a considera. Se o corpo físico adoece, tratamos apenas dele, sem a consciência de que a doença é a sinalização que a mente e as emoções estão em desequilíbrio. É inconcebível que neste universo, as forças vitais que dão origem ao corpo espiritual, mental e emocional não sejam levadas em conta no ambiente materialista do mundo moderno. E são esses campos de energia que alimentam a alma, que organizam as forças e o equilíbrio do corpo físico.

Emoções e pensamentos positivos plasmam o corpo emocional com estrutura equilibrada e saudável, já emoções e pensamentos negativos constituem padrões também negativos e debilitados. São essas energias geradas pelas emoções e pensamentos que nutrem nosso corpo, somos o que pensamos e sentimos, inegavelmente. É aí que está o segredo de tudo, nessa compreensão. Mas, pelo visto, não estamos chegando a essa conclusão sozinhos, precisamos ser inspirados a mudar, porque por conta própria não estamos conseguindo.

As plantas e o reino vegetal em todo seu contexto possuem grande capacidade de nos oferecer energia, um tipo de vibração que é rapidamente assimilado pela aura de todos os seres vivos. As plantas têm a capacidade de armazenar um padrão de energia sutil e superior, tornando os vegetais verdadeiros enviados de Deus, perfeitos veículos de manifestação da consciência divina.

Essa vibração que assimilamos com admirável facilidade tem a capacidade de elevar nossos padrões conscienciais a níveis superiores que podem nos levar à cura das emoções densas, nossa maior meta.
Assim sendo, as plantas têm sido amigas de jornada, oferecendo emanações de vibrações curativas, energizantes, harmonizantes e amorosas. Quando nos alinhamos ao coração do Reino Vegetal e sua missão, aproveitamos melhor essa dádiva divina e começamos a descobrir um universo inimaginável de beleza e amor.

Sim, precisamos valorizar a capacidade que as plantas têm de ornamentar, refrescar, trocar o ar e perfumar os ambientes, mas não devemos ficar limitados a esses benefícios. Definitivamente, precisamos enxergar mais e ver que, no verde de Deus, são-nos oferecidas as condições de evoluirmos de forma mais rápida e equilibrada.

Comecemos a olhar para as plantas reverenciando-as, expressando-lhes gratidão e respeitando-as mais. Afinal, são emissárias celestes com a nobre missão de curar o planeta.

Quer saber mais, então conheça o Livro Fitoenergética

Bruno J. Gimenes - sintonia@luzdaserra.com.br
Professor e palestrante, ministra cursos e palestras pelo Brasil. Sua especialidade é o desenvolvimento da consciência com bases na espiritualidade e na missão de cada um. Autor de 5 livros. Criador da Fitoenergética e co-fundador do Luz da Serra www.luzdaserra.com.br
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E-mail:sintonia@luzdaserra.com.br

sábado, 15 de maio de 2010

Primórdios do xintoísmo e do budismo

Os habitantes do Japão esposam simultaneamente duas crenças principais: o xintoísmo e o budismo, que coexistiram e se influenciaram mutuamente nos últimos 1.500 anos. O xintoísmo é nativo do Japão, ao passo que o budismo japonês é um ramo de uma religião mundial que inspira a devoção de centenas de milhões de pessoas no leste e no sudeste da Ásia e no Ocidente.

A religião nativa do Japão é chamada de "Caminho dos Deuses (ou Espíritos)", o que se expressa tanto por "Kami no Michi" quanto pelo sinônimo "shinto", uma articulação japonesa das palavras chinesas shen ("espírito") e dao ("caminho"). As duas expressões são escritas com os caracteres chineses de shen e dao. Desde o ressurgimento dessa religião, nos séculos XVIII e XIX, shinto tornou-se a designação mais comum - ironicamente, já que os promotores do renascimento tendiam a ser antichineses.

As raízes do xintoísmo estão cravadas profundamente na pré-história japonesa. Seu conceito mais antigo e fundamental, o de kami ("espírito", "ser divino" ou "deus/deusa"), ainda é fundamental para a consciência religiosa japonesa. A fonte suprema do budismo ficava longe do Japão, na Índia. Mas, como a maioria dos adornos da civilização japonesa, essa nova fé chegou por intermédio da China, a grande civilização-mãe do leste da Ásia, de onde foi levada para o Japão, passando pela Coréia, em meados do século VI. Nessa época o Japão não tinha escrita, mas o budismo levou consigo a alfabetização. Os escritos budistas eram acessíveis apenas nas traduções chinesas, e assim os aristocratas japoneses recémconvertidos o budismo levaria séculos para se espalhar por toda a população foram obrigados a aprender a ler os caracteres chineses.

O confucionismo e o taoísmo também chegaram ao Japão nesse período, e ambos tiveram um profundo impacto no xintoísmo e no desenvolvimento do budismo japonês. Entretanto, só em raras ocasiões (por exemplo, na corte de Tokugawa, c. 1700) eles atingiram o status de seitas religiosas.

Apesar do enorme impacto das crenças, da filosofia e das artes religiosas chinesas, o Japão sempre permaneceu diferente de sua vizinha do outro lado do mar. A tendência, profundamente arraigada na nação, de readaptar e transformar o que emprestava de outras culturas logo se manifestou. Com isso, as seitas budistas maaianas que se fixaram ou surgiram no Japão as "escolas de Nara",_ tendai,_ shingon,_ jodo-shu e jodo-shinshu,_ nichiren-shu e nichiren-shoshu, zen e outras logo se tornaram, e assim permaneceram, exclusivamente japonesas. Por essa razão, a linha entre budismo e xintoísmo pode às vezes ser um tanto nebulosa - como demonstra o fato de muitas divindades budistas passarem a ser cultuadas como kamis xintoístas.

Mais recentemente, o Japão assistiu à consolidação das chamadas "novas religiões" e ao ressurgimento do cristianismo, que chegou ao Japão no século XVI mas depois foi reprimido. O crescimento dessas crenças foi estimulado respectivamente pelo caos social das últimas três décadas (1837-67) do xogunato de Tokugawa e pelo rápido desenvolvimento econômico verificado depois da Segunda Guerra Mundial. Contudo, nos dois casos o resultado final foi puramente japonês, uma mistura relativamente harmoniosa de idéias, costumes, ritos e crenças estrangeiros e nativos.

O sincretismo fusão de crenças e práticas díspares num único sistema tem sido há muito tempo um traço da vida religiosa do Japão, junto com o que o Ocidente teria considerado um alto grau de "tolerância à ambigüidade". Com algumas importantes exceções, a maioria do povo japonês provavelmente se considera xintoísta e budista, e não percebe nenhuma contradição na prática de duas crenças com raízes tão radicalmente diferentes. Muitos diriam: o xintoísmo é a "religião da vida" e o budismo é a "religião da morte". Assim, por exemplo, a grande maioria dos casamentos japoneses é feita de acordo com os ritos xintoístas, ao passo que uma maioria igualmente grande dos funerais é budista e a maior parte dos cemitérios é ligada a templos budistas. De modo geral, o xintoísmo se concentra nas questões referentes a este mundo, na procriação, na promoção da fertilidade, na pureza espiritual e no bem-estar físico. O budismo, por outro lado, embora não rejeite o mundo real, sempre enfatizou mais a salvação e a possibilidade da vida após a morte. Na verdade, as seitas "terra pura" se formaram exatamente para atender a essa necessidade.

Qualquer avaliação do papel desempenhado pela religião no antigo e no moderno Japão precisa levar em conta alguns aspectos fundamentais da cultura japonesa. O mais importante é a subordinação do indivíduo ao grupo, expressa no dito japonês "o prego que se destaca será martelado". Muitos especialistas acham que esse ethos tem origem na cooperação estreita e na tomada de decisão coletiva exigida pelo cultivo do arroz em terreno alagado, até recentemente a principal fonte de sustento do Japão. A rizicultura, introduzida nesse país no fim do primeiro milênio antes de Cristo, exige mão-de-obra extremamente intensiva; antes da mecanização, cada planta de arroz tinha de ser inserida individualmente no campo molhado. Mesmo na época moderna, todos os membros de uma família subordinam suas inclinações pessoais ao trabalho coletivo pelo bem da colheita - e, por extensão, para a sobrevivência mútua. Num nível mais amplo, a atividade abrange a própria aldeia, onde um grupo de famílias se ajuda mutuamente no plantio, na retirada de ervas daninhas e na colheita.

A cooperação social e a concomitante ausência de um individualismo marcante caracterizaram desde o início tanto o xintoísmo quanto o budismo japonês. As duas religiões sempre fizeram da subordinação ao bem-estar da unidade social uma virtude primordial, quer essa unidade fosse a família, a aldeia produtora de arroz, o feudo dominado por uma elite de samurais ou o corpo de assalariados de uma moderna multinacional.

(trecho da publicação "Religiões" de autoria de Michael D. Coogan, editada pela Publifolha, que se encontra nas páginas de 238 a 241,e trata das Tradições Japonesas)

terça-feira, 11 de maio de 2010

GANHAR DISTÂNCIA PARA VER MELHOR


Ganhar distância para ver melhor

Por Leonardo Boff




Todos estamos angustiados com as crises pelas quais passa a Mãe Terra e a vida humana. E temos boas razões para tanto pois estamos nos confrontando com um futuro que pode ser de vida ou de morte. Para vermos melhor a situação, temos que ganhar um pouco de distância. Vamos comprimir os mais de 13 bilhões de anos de existência do universo num único ano cósmico. Vamos ver como ao longo dos meses foram surgindo todos os seres até os últimos segundos do último minuto do último dia do ano. Vejamos como fica o cenário que um cosmólogo amigo me ajudou a calcular.


A primeiro de janeiro ocorreu a Grande Explosão (o big bang).

A primeiro de março surgiram as grandes estrelas vermelhas que depois explodiram e de seus elementos, lançados em todas as direções, se
formou o atual universo.

A 8 de maio, surgiu a Via Láctea, uma entre cem bilhões.

A 9 setembro, nasceu o Sol, o centro de nosso sistema.

A 1 de outubro, nasceu a Terra, o terceiro planeta do Sol.

A 29 de outubro, irrompeu a vida no seio de um oceano primevo.

A 21 de dezembro, surgiram os peixes.

A 28 de dezembro às 8.00 horas, vieram os mamíferos.

A 28 de dezembro às 18,00 horas, voaram os pássaros.

A 31 de dezembro às 17.00 horas nasceram nossos antepassados pre-humanos, os antropóides.

A 31 de dezembro às 22.00 horas entra em cena o ser humano primitivo, o australo-piteco.

A 31 de dezembro às 23 horas, 58 minutos e 10 segundos surgiu o ser humano de hoje chamado de sapiens sapiens, portador de consciência reflexa.

A 31 de dezembro às 23.00 horas, 59 minutos e 6 segundos nasceu Jesus Cristo, figura central do cristianismo e para os cristãos o salvador do mundo.

A 31 de dezembro às 23.00 horas 59 minutos e 59,02 segundos Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil.

A 31 de dezembro às 23.00 hors e 59 minutos e 59,03 segundos a Europa começou a ser uma sociedade industrial e a expandir seu poder, explorando o mundo e criando o atual fosso entre ricos e pobres.

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,54 segundos, se fez a Independência do Brasil.

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,56 segundos (a partir de 1950) o ritmo da exploração e devastação ecológica se acelerou dramaticamente.

A 31 de dezembro, às 23 horas, 59 minutos e 59,58 segundos Lula foi eleito Presidente, um operário no poder. Pouco depois se constatou o perigoso aquecimento global que pode ameaçar o futuro da civilização.

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,59 segundos viemos nós ao mundo.

O sentido desta leitura é desbancar o antropocentrismo, quer dizer, aquela visão que empresta valor intrínseco somente ao ser humano e tudo o mais é colocado a seu serviço. A história do universo mostra que não é bem assim. Ele é um dos últimos seres a surgir e se insere no movimento geral do cosmos. Mas possui uma singularidade: só ele sabe conscientemente desta história e seu lugar no tempo. E se sente responsável pelo curso bom ou desastroso da Terra.

O tempo humano é mais curto que um leve suspiro de criança. Mesmo assim surge em nós um sentimento de gratidão para com o universo que organizou todas as coisas de tal forma que nós pudéssemos agora estar aqui para pensar e se admirar estas maravilhas, cheios de respeito e de reverência.

E não estamos sozinhos. O universo nos deu tantos companheiros e companheiras que são as estrelas, os animais, as plantas, os pássaros e os seres humanos, todos formados pelos mesmos elementos cósmicos. Somos um grande Todo.

Esse Todo terrestre não pode acabar miseravelmente pela nossa irresponsabilidade. Vamos superar a crise e continuar a viver e a brilhar, pois nosso berço está nas estrelas.

Publicado no site ENVOLVERDE-Revista Digital - http://www.envolverde.com.br ,em 11/05/2010

domingo, 9 de maio de 2010

O ENCANTO DOS ORIXÁS (LEONARDO BOFF)


Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuina brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento inecessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso pais criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteismo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.

A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.

Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T. S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.

Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.

Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.

Leonardo Boff é autor de Meditação da Luz. O caminho da simplicidade. Vozes 2009.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Quem é o seu Amante

Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm e as que tinham e perderam.
Geralmente são essas últimas as que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insônia, apatia, pessimismo, crises de choro ou as mais diversas dores.
Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar seu tempo livre.
Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança.
Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: “Depressão”, além da inevitável receita do antidepressivo do momento.
Assim, após escutá-las atentamente, eu lhes digo que elas não precisam de nenhum antidepressivo. Digo-lhes que elas precisam de um AMANTE! É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem meu conselho.
Há as que pensam: “Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa dessas?!” Há também as que, chocadas e escandalizadas, se despedem e não voltam nunca mais.
Àquelas, porém, que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico o seguinte: AMANTE é “aquilo que nos apaixona”. É o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir.
O nosso AMANTE é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante em nosso parceiro, outras, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo ou no prazer obsessivo do passatempo predileto...
Enfim, é “alguém” ou “algo” que nos faz “namorar” a vida e nos afasta do triste destino de “ir levando”.
E o que é “ir levando”? Ir levando é ter medo de viver.
É o vigiar a forma como os outros vivem, é o se deixar dominar pela pressão, perambular por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastar-se do que é gratificante, observar decepcionado cada ruga nova que o espelho mostra, é se aborrecer com o calor ou com o frio, com a umidade, com o sol ou com a chuva.
Ir levando é adiar a possibilidade de desfrutar o hoje, fingindo se contentar com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contente com “ir levando”. Procure um amante, seja também um amante e um protagonista... DA SUA VIDA!


Acredite: o trágico não é morrer. Afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém.
O trágico é desistir de viver; por isso, e sem mais delongas, procure um Amante...
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo Transcendental: “PARA SE ESTAR SATISFEITO, ATIVO, SENTIR-SE JOVEM E FELIZ, É PRECISO NAMORAR A VIDA."

Dr. Jorge Bucay - PSICÓLOGO –

Tradução do original “Hay que buscarse un Amante”

terça-feira, 4 de maio de 2010

A estória do Boneco de Sal - Por Leonardo Boff*

Nos últimos tempos temos dedicado nossas reflexões quase que exclusivamente às questões ambientais e aos desafios que as mudanças climáticas implicam para o futuro de nossa civilização, para a produção e o consumo.

Nem por isso devemos descurar os problemas cotidianos, a construção continuida de nossa identidade e a moldagem de nosso sentido de ser. É uma tarefa nunca terminada. Entre muitas, duas provocações estão sempre presentes e temos que dar conta delas: a aceitação dos próprios limites e a capacidade de desapegar-se.

Todos vivemos dentro de um arranjo existencial que, por sua própria natureza, é limitado em possibilidades e nos impõe barreiras de toda ordem, de lugar, de profissão, de inteligência, de saúde, de economia, de tempo. Há sempre um descompasso entre o desejo e sua realização. E às vezes nos sentimos impotentes face a dados que não podemos mudar como a presença de um esquisofrênico com seus altos e baixos ou um doente terminal. Temos que nos resignar face a esta limitação intransferível. Nem por isso precisamos viver tristes ou impedidos de crescer. Há que ser criativamente resignados. A invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como de tudo podemos aprender. Bem dizia a sabedoria oriental:"se alguém sente profundamente o outro, este o perceberá mesmo que esteja a milhares de quilômetros de distância". Se te modificares em teu centro, nascerá em ti uma fonte de luz que irradiará para os outros.

A outra tarefa da autorealização é a capacidade de desapegar-se. O zenbudismo coloca como teste de maturidade pessoal e liberdade interior a capacidade de desapegar-se e de despedir-se. Se observamos bem, o desapego pertence à lógica da vida: despedimo-nos do ventre materno, em seguida, da meninice,da juventude, da escola, da casa paterna, de parentes e da pessoa amada. Na idade adulta despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que irrefragavelmente vão se desgastando até despedirmo-nos da própria vida. Nestas despedidas deixamos um pouco de nós mesmos para trás.

Qual é o sentido deste lento despedir-se do mundo? Mera fatalidade irreformável da lei universal da entropia? Essa dimensão é irrecusável. Mas será que ela não guarda um sentido existencial, a ser buscado pelo espírito? Se, fenomenologicamente, somos um projeto infinito e um vazio abissal que clama por plenitude, será que esse desapegar-se não significa criar as condições para que um Maior nos venha preencher? Não seria o Supremo Ser, feito de amor e bondade, que nos vai tirando tudo para que possamos ganhar tudo, no além vida, quando nossa busca finalmente descansará?

Ao perder, ganhamos e ao esvaziarmo-nos ficamos plenos. Dizem por aí que esta foi a trajetória de Jesus, de Buda, de Francisco de Assis, de Gandhi, de Madre Teresa e de outros.

Talvez um estória dos mestres espirituais antigos nos esclareça o sentido da perda que produz um ganho. "Era uma vez um boneco de sal. Após peregrinar por terras áridas chegou a descobrir o mar que nunca vira antes e por isso não conseguia comprendê-lo. Perguntou o boneco de sal:" Quem és tu? E o mar respondeu:"eu sou o mar". Tornou o boneco de sal: "Mas que é o mar?" E o mar respondeu:" Sou eu". "Não entendo", disse o boneco de sal. "Mas gostaria muito de compreender-te; como faço"? O mar simplesmente respondeu: "toca-me". Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com a ponta dos dedos do pé. Percebeu que aquilo começou a ser compreensível. Mas logo se deu conta de que haviam desaparecido as pontas dos pés. "Ó mar, veja o que fizeste comigo"? E o mar respondeu:"Tu deste alguma coisa de ti e eu te dei compreensão; tens que te dares todo para me compreender todo". E o boneco de sal começou a entrar lentamente mar adentro, devagar e solene, como quem vai fazer a coisa mais importante de sua vida. E na medida que ia entrando, ia também se diluindo e compreendendo cada vez mais o mar. E o boneco continuava perguntando: "que é o mar". Até que uma onda o cobriu totalmente. Pode ainda dizer, no último momento, antes de diluir-se no mar: "Sou eu".

Desapegou-se de tudo e ganhou tudo: o verdadeiro eu.

(Publicado na Revista Envolverde . www.envolverde.com.br, em 04/05/2010)

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