O processo de individuação formulado por Jung é considerado quase uma unanimidade como uma de suas maiores contribuições à psicologia e um de seus conceitos fundamentais. É o coração da psicologia analítica.
Em suas Memórias, Jung fala que foram as suas próprias experiências internas que o levaram à descoberta do processo de individuação. A sua grande busca consistia em conhecer a si mesmo e o significado da vida. Jung introduziu o termo individuação “para designar um processo através do qual um ser torna-se um ‘individuum’ psicológico, isto é, uma unidade autônoma e indivisível, uma totalidade”. Isto quer dizer que a psique tem como objetivo o encontro com seu próprio centro, a unicidade, que é o retorno do ego às suas origens.
Segundo Jung todo indivíduo possui uma tendência para a individuação ou autodesenvolvimento. Esta luta pela auto-regulação é arquetípica, isto é, inata. Ninguém consegue escapar à poderosa influência do arquétipo de unidade, embora varie de pessoa para pessoa o curso que tal expressão pode adotar e o êxito obtido na realização de uma personalidade plenamente diferenciada, equilibrada e unificado. Para Jung “a individuação é, portanto, um processo de diferenciação cujo objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual”. Ele descreveu as principais etapas do processo de individuação.
O primeiro passo no processo de individuação é o desenvolvimento da persona. Ora a persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo e embora esta tenha funções protetoras importantes, ela é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente. Quanto mais a persona aderir a pele do “ator”, tanto mais dolorosa será a operação psicológica para despi-la.
Quando é retirada a máscara que o ator usa nas suas relações com o mundo, aparece uma fase desconhecida. Esse é o próximo passo no processo de individuação que é o confronto com a sombra.
A sombra é o núcleo do material que foi reprimido da consciência. Ela expressa tendências e impulsos que podem ser positivos ou negativos e que negamos em nós mesmos. Geralmente são defeitos e impulsos que não aceitamos como sendo nossos e, portanto, projetamos em outras pessoas. Aceitar a sombra é aceitar a incerteza, aceitar que falhamos, que muitas vezes não conseguimos, não nos realizamos, nos frustramos, temos defeitos, não ajudamos ou compreendemos os outros, somos maus. Ou seja, na medida em que nós aceitamos a realidade da sombra e dela nos distinguirmos podemos ficar livres de sua influência.
O terceiro passo é o confronto com a anima ou animus. A anima expressa as tendências psicológicas femininas na psique masculina. É a imago materna, já que a primeira projeção da anima do filho é em sua mãe. Segundo M.L. Von Franz são características da anima, os “humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente”. Algumas funções da anima seriam: a escolha da esposa, sensibilização da mente masculina aos seus valores internos, auxiliar no discernimento interno e mediar o contato do ego com o Self.
Já o animus são os aspectos masculinos na psique feminina, correspondendo ao Logos paterno. Suas características são: as convicções, opiniões, argumentos, etc. Atender ao seu animus auxilia a mulher a ter mais iniciativa, coragem e objetividade em suas decisões, características essenciais do Logos.
Esses dois arquétipos mediam nossas relações com o outro, a alteridade, a diferença, a realização da polaridade (feminino e masculino). Eles geralmente são projetados para os indivíduos do sexo oposto. Por esse motivo, a forma como lidamos com o sexo oposto nos fornece indícios sobre como lidamos com as nossas características femininas e masculinas.
O estágio final no processo de individuação é o desenvolvimento do Self. É o arquétipo central e regulador do psiquismo. É a totalidade psíquica, integrando todos os arquétipos e característica ao seu redor. Traz unidade à psique e integra o material consciente e o inconsciente. O ego é ainda o centro da consciência mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade, e sim como uma das inúmeras estruturas dentro da psique.
O conceito do arquétipo do Self figurou ser o resultado mais importante das investigações Jungianas sobre o inconsciente coletivo. Ele descobriu este arquétipo depois de haver completado os intensos estudos sobre os outros arquétipos. Chegou à conclusão que “... o Self é a meta de nossa existência, por ser ele a mais completa expressão da combinação a que estamos fadados e que denominamos individualização...”
A psicoterapia é antes de tudo um processo de individuação e este processo é bem mais complexo do que a simples progressão dessas etapas vistas em cima. Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam continuamente a problemas e temas antigos. Segundo Fadiman e Frager, “a individuação poderia ser apresentada como uma espiral no qual os indivíduos permanecem se confrontando com as mesmas questões básicas, de forma cada vez mais refinadas”.
(Paulo Lopes - Psicólogo Clínico, com especialização em Ciências das Religiões )
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